quarta-feira, 6 de abril de 2016

A grande obra

O casarão antigo e suntuoso ainda existe na lembrança.
Com suas vigas de madeira maciça e três andares de pura história e móveis nostálgicos.
Os quadros dramáticos e o piano empoeirado no canto da grande sala. 
As paredes com profundas rachaduras, o piso começava a ceder.
Ter vivido brilhantes anos sob "este teto", proporcionou o bem mais valioso que jamais será esquecido, a experiência de vida. 
Porém, havia chegado a hora de substitui-lo por uma nova obra. 
É um processo trabalhoso, que requer paciência e tempo.
Muito desprendimento de tudo o que passou e focar no que virá de mais belo.
O espaçoso terreno, já tomado pela grama alta e densa, merecia um enorme lar, amplo, iluminado, de decoração leve e convidativo.

Repleta de amor, carinho, alegria e compaixão.


O dia da estrela cadente

Não me recordo de já ter visto uma estrela cadente.
Mas definitivamente, esta noite se tornou memorável.
Absorta em meus diversos pensamentos, ali, parada, observando despretensiosamente o céu de uma noite quente, me surpreendi quando vi a luz despencando, nascendo e sumindo em uma fração de segundo, trazendo a lembrança de que se faz um pedido nesse momento.
Não pude pedir nada, já conheço o significado de felicidade.
Me veio então, espontaneamente, uma frase:
Eu amo.
Você me pergunta: 'o que você ama'?
Eu amo poder observar o céu e viajar mentalmente pelas nuvens,
poder caminhar da areia até o mar,
poder tocar as plantas e sentir a terra úmida com meus pés descalços.
Amo poder me desconstruir e construir quantas vezes eu achar necessário.
Amo ver o sorriso nas pessoas.
Amo o suave, o moderadamente doce, o iluminado, a consciência plena.
Amo a amizade, a lealdade e mãos dadas. 
Amo pessoas, coisas, animais, cheiros e gostos. 
Eu amo, simplesmente.




"A Crônica do Vazio"

Era uma tarde de março. 

O piso claro e gelado, refletia o sol tímido que entrava pela janela ampla do salão.

Eduardo sentado na costumeira cadeira, observando com olhos curiosos e desconfiados, à procura de um sinal de vida, de qualquer manifestação que pudesse trazê-lo algum sentimento de acolhimento, qualquer coisa que ele pudesse se identificar e se agarrar, em meio ao salão vazio e estacionado no tempo.

Mas é tudo cinza e silencioso. 
Oco, preso num vácuo dilacerante. 
O único ruído é o do nada, do desalento. 
Do frio sob 30 graus,
Do silêncio do buzinaço, alarmes, campainhas.
Desconfortável para deitar-se e desolado demais para querer manter-se em pé.

Alguém que recosta sobre o espaldar da cadeira à espera que o transe do vazio se vá.

A claridade refletida no chão, não alcança este corpo exausto, de peito dolorido e olhar estático, já seco de outros tempos.

Ele desejava encontrar um grão de alegria sequer, em qualquer símbolo que representasse o acalento, não havia nada ao seu redor. E no fundo, ele sabia que nada viria.

O som dos pneus esmagando as pedrinhas da rua, invadiu seus ouvidos.
Pensou estar sonhando, como se fosse um truque de ilusão, um delírio de esperança.

Era aquele tradicional automóvel preto e brilhante, que não se podia saber o que ele traria ali dentro.

Se traria boas novas ou se mais vazio para completar seu universo inerte.